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Nas profundezas

Nas profundezas
Nas profundezas

Autor: Huysmans, J.-K.; Catharina, Pedro Paulo

Editora: Carambaia

Idioma: por
Ano: 2018
Idioma: por

R$ 109,90
  • Disponível: Indisponível
  • Editora: Carambaia
  • ISBN: 9788569002451

Frete Grátis Brasil

Prazo de entrega:

Sul e Sudeste de 5 a 7 dias

Centro-Oeste, Norte e Nordeste de 10 a 15 dias

J.-K. Huysmans (1848-1907), com o romance Às avessas (À rebours, 1884), tornou-se o escritor máximo do decadentismo francês, o movimento de reação ao naturalismo e à sociedade tecnológica de massas que se anunciava no final do século XIX. Em seu romance posterior, Nas profundezas (Là-bas, 1891), que a CARAMBAIA publica agora no Brasil em tradução inédita de Mauro Pinheiro, o escritor voltou-se para um assunto que desafiava a racionalidade científica e vinha despertando interesse entre alguns setores da sociedade francesa: o satanismo. “Que época estranha!”, observa um personagem. “Justamente no momento em que o positivismo atinge seu auge, o misticismo desperta e têm início as loucuras do oculto!”

Em um dos capítulos, Nas profundezas traz a descrição de uma missa negra (satânica), feita, segundo o autor, de acordo com uma experiência verídica. Foi um dos motivos da notoriedade do livro. A par de suas qualidades como literatura e documento, Nas profundezas provocou escândalo pela descrição das  atrocidades cometidas por um padre satanista da Idade Média e pela dubiedade moral de seus personagens contemporâneos. Leitores pressionaram para que fosse suspensa sua publicação serializada no jornal L’Écho de Paris, o que não aconteceu. Ao ser lançado em livro, a venda do romance chegou a ser proibida nas livrarias de estações ferroviárias.

O escândalo não era estranho a Huysmans desde a publicação de Às avessas, cujo personagem principal, Jean Floressas Des Esseintes, é um dândi excêntrico que, entediado com a realidade de seu tempo, se cerca de objetos de arte, livros raros e produz experiências sensoriais bizarras. Livro e personagem teriam provocado grande impacto em Oscar Wilde, inspirando a criação de O retrato de Dorian Gray. O romance foi levado ao tribunal pelo promotor do julgamento de Wilde por homossexualismo, como suposta prova de perversão do réu. Do campo literário, a reprovação veio do ex-padrinho artístico de Huysmans, Émile Zola, que reconheceu no romance a intenção do autor de romper com a escola naturalista.

No entanto, um procedimento típico do naturalismo, o embasamento quase científico dos fatos narrados ficcionalmente, é uma das razões do vigor de Nas profundezas. Nele, Durtal, um escritor individualista, alter ego do próprio Huysmans, se encontra em meio a pesquisas para uma biografia do satanista medieval Gilles de Rais, acusado de estuprar e degolar centenas de crianças. O romance é feito em boa parte de conversas sobre cristianismo, ocultismo, alquimia e práticas de magia. Entre os interlocutores, estão um médico desiludido com o estado da ciência em sua época, o devoto sineiro da igreja de Saint Sulpice, em Paris, um astrólogo e um historiador, cuja mulher se torna amante de Durtal e o conduz até a missa negra ministrada pelo cônego Docre, que tem uma cruz tatuada na sola do pé para pisar o tempo todo no símbolo principal do cristianismo. A inspiração para esse personagem seria um religioso belga. O abade Joseph Boullan, amigo de Huysmans e também acusado por alguns de satanismo, inspirou o personagem dr. Johannès, retratado como um padre que pratica a magia para derrotar Satã.

Durtal voltaria como personagem principal dos três romances seguintes de Huysmans, que acompanham a conversão do autor ao catolicismo, religião que havia abandonado quando muito jovem. Nascido em Paris e batizado como Charles-Marie-Georges Huysmans, o escritor era filho único de um litógrafo e miniaturista holandês e de uma professora francesa. Aos 20 anos, iniciou uma carreira de três décadas no Ministério do Interior francês, que lhe deu sustento para atuar na literatura. Ao lançar, às próprias expensas, seu primeiro livro, uma reunião de poemas, adotou, em homenagem à família do pai, o nome holandês Joris-Karl Huysmans. Seus livros seguintes usariam as abreviaturas J.K. ou J.-K.

Os primeiros romances de Huysmans se filiavam ao naturalismo, e uma novela baseada em sua experiência na Guerra Franco-Prussiana foi publicada numa coletânea de escritores vinculados à escola, tendo à frente Zola e Guy de Maupassant. A ruptura viria logo depois, em 1882, com a série de romances decadentistas que inclui Às avessas e Nas profundezas. A essa fase se seguiu aquela relacionada à conversão do autor ao catolicismo, incluindo a passagem por um monastério trapista e seu retiro como oblato (monge leigo) na Irmandade dos Beneditinos em Ligugé, no noroeste da França, onde ficou até 1901. Com o fim da irmandade, voltou a Paris, onde morreu seis anos depois, de um câncer na boca.

Toda a obra de Huysmans pode ser lida como uma odisseia espiritual em tempos dominados pelo materialismo. Paralelamente à sua obra literária, ele foi também um influente crítico de arte, defensor do impressionismo e do simbolismo contra a arte acadêmica e conformista.

A edição da CARAMBAIA de Nas profundezas traz posfácio de Pedro Paulo Catharina, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro e membro da Société Huysmans. O projeto gráfico de Lucas Blat faz alusão à missa satânica e à hóstia sagrada, costumeiramente dessacralizada nesse tipo de cerimônia.

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